Buscar
  • Cássio C. Nogueira

Você também não gosta de quem aperta o meio da pasta de dente?

Na semana passada, publiquei um texto* cujo título era: “Jamais confie em alguém que espreme o detergente!” Sugeria que as pessoas conscientes e respeitosas em geral valorizam todos e tudo, na maior parte do tempo, e tendem a ser gentis e delicadas mesmo ao manipular objetos simples e descartáveis como um pote de detergente. Foi então que alguém me questionou: “―Você também não gosta de quem aperta o meio da pasta de dente?”


Minha primeira reação foi pensar como eu aperto o creme dental, claro, mas logo em seguida me veio à reflexão a clara evidência que meu texto produziu a impressão de preconceito naquela pessoa. Fiquei chocado! Minha intenção era apontar padrões comportamentais que facilitassem a identificação de perfis prováveis de respeito ou de indiferença. Prováveis, não certos! E, para tanto, utilizei uma generalização.


Foi então que percebi como a generalização e o preconceito estão próximos um do outro.


Generalizações são sínteses de características comuns a um grupo de indivíduos, desprezando as suas diferenças. São úteis quando precisamos agir ou reagir com agilidade e abrangência, mas podem ser um sério problema quando a síntese não é verídica ou a individualidade é relevante. Por exemplo, se você quiser promover um show de rock, será importante considerar que ‘roqueiros’ dançam com agressividade e que será necessário criar um espaço onde eles tenham liberdade para se movimentar. Por outro lado, impedir a entrada de alguém vestido como ‘roqueiro’, porque você assume que, se dançam com agressividade, são violentos e vão criar problemas, você provavelmente estará cometendo uma injustiça.


Como você pode deduzir, o preconceito é resultante de generalizações e crenças incoerentes com o contexto em questão. E os filósofos confirmam isso! Gordon Allport considerava a atitude negativa em relação a uma pessoa, baseada na crença de que ela tinha as características negativas atribuídas a um determinado grupo. Norberto Bobbio assumia a opinião obtida por tradição, costume ou uma autoridade, sem questionar. Theodor W. Adorno pensou na personalidade autoritária, intolerante, conservadora e hostil com quem desafiava as regras sociais, por desconfiança e suspeita. Lya Luft ainda lembra o medo do diferente por ser desconhecido. Em todas essas análises figuram generalizações e crenças que não são fatos em contextos específicos.


Meu alarme, portanto, é o perigo de promovermos uma injustiça ou causar um desconforto desmerecido exatamente ao oferecer uma ferramenta de produtividade ou alertar as pessoas para possíveis riscos em seus cotidianos. Penso inclusive no extremo de criticar atitudes preconceituosas tratando outras pessoas com preconceito como, por exemplo, ao afirmar que pessoas que apresentam preconceitos são menos inteligentes, como sugere a publicação da revista Galileu**, intitulada: “Pessoas homofóbicas são menos inteligentes, mostra pesquisa”. Afinal, as pesquisas mostraram que pessoas com maior habilidade cognitiva tendem ao menor preconceito e vice-versa, ou seja, mesmo com maior habilidade cognitiva pode haver preconceito e pessoas com menor habilidade cognitiva podem não apresentar preconceitos ―embora não seja a maioria dos casos, são fatos possíveis. Assim, julgar alguém menos inteligente por apresentar um preconceito ou julgar preconceituoso alguém com uma inteligência não tão pronunciada pode ser uma forma de preconceito. Como já destacaram os filósofos, generalizações e falta de informações precisas podem facilmente gerar medos e suspeitas infundadas, inclusive, por causa do ritmo acelerado, da ansiedade em evitar conflitos e da indignação frente à injustiça, tão comuns nos dias de hoje e que podem ser armadilhas mesmo para os mais inteligentes humanos.


Quais são os seus preconceitos?

_____________


REFERÊNCIAS


*

BELAS URBANAS, Jamais confie em alguém que espreme o detergente! Disponível em: <http://www.belasurbanas.com.br/jamais-confie-em-alguem-que-espreme-o-detergente/>. Acessado em 2 de março de 2018.


**

REVISTA GALILEU, Pessoas homofóbicas são menos inteligentes, mostra pesquisa. Disponível em: < https://revistagalileu.globo.com/Sociedade/noticia/2018/06/pessoas-homofobicas-sao-menos-inteligentes-mostra-pesquisa.html?utm_source=facebook&utm_medium=social&utm_campaign=post>. Acessado em 7 de junho de 2018.

3 visualizações