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  • Cássio C. Nogueira

Acumulando apegos...


Foto de GuangYuan YU (https://www.artstation.com/yuang).


Algumas semanas atrás, alguém que conheci me contou que mantém três carros (de mesmo modelo), em uma garagem de aluguel. Produzidos nos anos 80, os carros estão em relativamente bom estado, mas não passam* por manutenções periódicas adequadas e, então, ele raramente os tira da garagem; inclusive, ele nem vai muito à garagem.


Curioso, perguntei o que fazia ele manter esses carros e ele me respondeu que eles eram “carros de verdade”, os melhores já produzidos no Brasil! Ele me contou que, lá nos anos 80, quando ele os comprou, não havia carros “mais fortes”, nem mais “chamativos”! E daí, ele começou a discorrer sobre os “bons e velhos tempos”, quando quem ele era ⸻e fazia tudo⸻ muito, mas muito melhor que hoje! E ele me falava dos “rachas” (corridas ilegais de rua) que ele venceu, das meninas que ele beijou nos (ou por causa dos) carros, de como todo mundo “torcia o pescoço”, quando ele passava, e “tals”...


E não era só os carros que ele guardava! Ele ainda tinha centenas de discos de vinil empilhados e infinitas caixas de fitas K-7 enfiadas no armário de um quarto que ele fazia de escritório. Segundo ele, eram registros originais das melhores músicas das melhores bandas da história do rock, ao que ele enfatizava: “⸻Naquele tempo, sim, se fazia boa música! Não como hoje.” Paradoxalmente, ele confessou que todas as músicas que ouve atualmente estão nas playlists de um aplicativo para telefone.


Nessa conversa, fui sentindo o quanto essa pessoa estava, de uma certa forma, presa ao seu passado, mais precisamente, à sua vida nos anos 80. Era como se esses carros, discos e fitas fossem um lugar para onde ele podia voltar a viver as emoções das experiências daquela época. Para ele, o presente não tinha valor; nada do que era “hoje” podia ser tão bom quanto o que foi naqueles dias empolgantes...


Enquanto ele falava, eu me perguntava: o que o passado teria dado a esse homem que o presente não podia oferecer? Mas a pergunta rapidamente evoluiu para: o que faz com que ele olhe somente para o passado e ignore as possibilidades do presente?


E foi quando eu lembrei que vejo pessoas acumulando as mais variadas coisas, o tempo todo; coisas curiosas e intrigantes, até: tem quem acumule coisas quebradas e não use as coisas novas, em perfeito estado; tem quem acumule histórias, fotos, imagens e não olhe para os cenários e para os acontecimentos que estão ao seu redor, neste exato momento; tem quem acumule paixões vividas e não seja capaz de criar quaisquer laços com pessoas incríveis que estão bem ali, à sua frente; tem até quem acumule críticas, mágoas, frustrações, momentos de desconforto, dor e sofrimento!


Essas pessoas parecem tão apegadas aos seus julgamentos do passado que, além de não perceberem as possibilidades de experiências ricas, empolgantes, agradáveis e construtivas à sua disposição, hoje, ainda se esforçam para criar mais situações e relações dolorosas, só para provarem suas perspectivas sobre esse passado e acumularem ainda mais exemplares dessa “miséria emocional”... E muitas delas parecem ter orgulho dessas “coleções”!


Talvez, o que elas acumulem de fato seja o apego ao que poderia ter sido, mas não é hoje...


E você? O que você acumula?


Ter boas memórias é saudável e agradável. Entretanto, acumular apegos cria uma prisão dentro da ilusão do controle sobre o tempo, as coisas e as pessoas vividos, o que produz angústia e limita a sua capacidade de experimentar mais possibilidades e criar mais espaço, mais vida e mais satisfação, no presente. Pense: você só consegue colocar roupas novas, mais confortáveis, úteis e interessantes no guarda-roupas, se você tiver espaço livre, se os cabides todos não estiverem ocupados com as velhas, inúteis e desconfortáveis roupas do passado!


Mas isso tudo é só mais um ponto de vista interessante que eu tenho...


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